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Desemprego põe à prova a frágil rede de proteção social dos EUA
23/07/2009

Brian Gutrick viajou quase 2 mil quilômetros e pagou US$ 12 mil para tentar recomeçar. Empregado da construção civil, recém-casado, ele queria um trabalho com melhores perspectivas e mais estabilidade. Para isso, levantou um empréstimo estudantil e partiu da Virgínia para uma escola profissionalizante no Alabama, para estudar sistemas de aquecimento, ventilação e de ar condicionado.

Brian concluiu o programa profissionalizante H-vac em 2007, em primeiro lugar na sua turma, mas bateu de frente com uma economia que já dava sinais problemáticos. Antes que pudesse achar um emprego, o país entrara na pior recessão desde a Grande Depressão.

"Estou tentando de tudo, já mandei pelo menos quinhentos currículos e não recebi nem uma resposta", diz Brian, de 32 anos, que ainda não encontrou um emprego compatível com o curso H-vac. "Tenho três filhos e uma mulher, preciso fazer alguma coisa."

Ele é persistente. Vai às entrevistas de terno e gravata e leva consigo comprovantes de suas notas escolares e seu certificado de conclusão. Mas não está chegando a lugar nenhum - e não está sozinho nessa situação. Desde que Brian conclui seu curso profissionalizante, 7,2 milhões de americanos perderam seus empregos, elevando o número total de desempregados para 14,7 milhões. A taxa de desemprego está atualmente em 9,5% e quase certamente atingirá dois dígitos até o fim do ano.

Esse impacto no mercado de trabalho da maior economia do mundo apanhou muita gente desprevenida. Em 2007, os EUA tinham uma das mais baixas taxas de desemprego na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas agora sua taxa é uma das mais elevadas, atrás apenas de Espanha, Irlanda, Hungria e Eslováquia.

Isso deixou em nítida evidência a fragilidade da rede de seguridade social no país. As pessoas que perderam seus empregos estão perdendo seus seguros-saúde e suas moradias. Desde o início da recessão, cresceu em 6,2 milhões o número de pessoas que depende de vales-alimentação do governo - e o esquema agora é responsável por alimentar um quase recorde de 1 em cada 9 americanos.

Em 2007, os EUA estavam se sentindo bastante presunçosos quanto à superioridade de seu mercado de trabalho, caracterizado pelas facilidades de contratar e demitir pessoal. O país estava se adaptando mais rapidamente do que outros à migração da indústria de transformação para a Ásia, e pessoas como Brian pulavam despreocupadamente de emprego em emprego, em busca de uma vida melhor. Embora a Europa continental tenha conseguido criar muitos empregos nesta década, seus mercados de trabalho ainda são caracterizados por trabalhadores intransigentes e desemprego estruturalmente elevado.

"[Nós] podemos ser os mais bem posicionados para aproveitar as mudanças que acontecerão em escala mundial, exatamente por nossa capacidade de adaptação", escreveu no "New York Times", em 2007, Austan Goolsbee, economista que hoje é membro do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama. "A economia mundial pode impactar duramente o setor econômico onde você trabalha, mas olhe o lado positivo: você poderia ser francês."

Hoje, ser francês poderia não ser tão desfavorável. A taxa de desemprego na França (embora já elevada) subiu apenas um ponto percentual, para 9,3%, desde 2007. Na Alemanha, a taxa, na realidade, caiu de 8,4% para 7,7%.

"O mercado de trabalho americano é extraordinariamente flexível, [o que] em tempos normais é uma grande vantagem", diz Robert Reich, que foi secretário do Trabalho do presidente Bill Clinton. "Quando temos um declínio econômico como este, essa mesma flexibilidade pode ser um grande empecilho." As empresas nos dois lados do Atlântico apressaram-se em reduzir custos assim que a demanda esfriou, mas os empregadores americanos têm o denominado direito de demitir pessoas "à vontade" - a qualquer momento e por qualquer razão.

Quando o pânico varreu o país em 2008, as companhias valeram-se desse direito para enxugar suas folhas de pagamento, que constituem cerca de 70% dos custos da maioria das companhias. Economistas viram, horrorizados, a escalada da eliminação de empregos: 380 mil em outubro, 597 mil em novembro, 681 mil em dezembro.

Diferente dos europeus, muitos americanos que perderam seus empregos descobriram não ter como compensar a perda de sua renda. O seguro-desemprego estatal, que cobre aproximadamente um terço do salário, geralmente exige que a pessoa tenha trabalhado em tempo integral durante pelo menos um ano em seu último emprego. Mais da metade dos desempregados não conquistou esse direito. Entre eles está Gutrick.

"A rede de segurança social ficou obsoleta", diz Reich. "Isso não apenas surpreendeu as pessoas, como foi uma surpresa dolorosa." O seguro-desemprego foi instituído em 1935, num momento em que a maioria das pessoas que perdiam seus empregos trabalhava em tempo integral havia vários anos. "Agora, muita gente perdeu seu trabalho após estar empregada durante 6 a 12 meses, ou estava trabalhando meio período, ou estava envolvida em algum trabalho independente ou autônomo."

Sterling Taylor é um autônomo que encara trabalhos na construção civil à medida que vão surgindo, uns dias aqui, umas semanas ali. Durante o boom no mercado imobiliário, isso significava trabalho em tempo integral. "Eu me lembro de períodos, há uns dois anos, quando a gente podia responder um anúncio e conseguir um trabalho na hora, sem perguntas ou requisitos", recorda ele, pensativo. "Agora? Sem chance. Isso simplesmente não acontece mais."

Atualmente, aos 42 anos de idade, ele só consegue, e a duras penas, uns dois dias de trabalho por semana. Taylor pertence a um vasto grupo de pessoas que não aparece nas estatísticas de desemprego. No jargão estatístico, ele trabalha em "regime de meio período por razões econômicas", isto é, trabalha menos de 34 horas por semana por não encontrar um empregador disposto a remunerá-lo por horas adicionais de trabalho.

No ano passado, o número de pessoas nas condição de Taylor mais que dobrou, de 4,4 milhões para 9 milhões, ou 5,8% do mercado de trabalho - percentual mais elevado desde quando as estatísticas começaram a ser coletadas. Esse contingente não é composto apenas por trabalhadores eventuais e freelancers; muitas companhias de grande porte também reduziram horas de trabalho para cortar custos. Em consequência, o país célebre por uma cultura que incentiva longas horas no emprego agora trabalha em média 33 horas semanais, o menor tempo já registrado.

Para estreantes no mercado de trabalho recém-saídos de cursos colegiais e universitários, a situação é difícil. Melissa McCrumb, 23 anos, que acabou de se formar pela Universidade da Virgínia, agora trabalha como garçonete, ganhando US$ 2 por hora mais gorjetas. Os donos do restaurante agora cozinham eles próprios em quatro ou cinco noites por semana para economizar a remuneração de um chefe de cozinha.

McCrumb não se importa em trabalhar como garçonete por algum tempo, enquanto decide o que fazer da vida, mas o tempo é implacável. Em dezembro ela precisará começar a honrar um empréstimo estudantil de US$ 40 mil.

"Estou realmente preocupada: quando dezembro chegar, será que conseguirei encontrar um emprego? Muitos amigos meus não estão conseguindo nada", diz ela. Alguns se matricularam em cursos de mestrado "só para dar um tempo" ao passo que outros voltaram a morar com os pais. Todos estão repensando o tipo de trabalho que estão dispostos a encarar, pois também eles não têm direito ao seguro-desemprego, porque nunca trabalharam em tempo integral.

"Eu tenho uma tonelada de amigos que, neste momento, está se candidatando a qualquer tipo de trabalho. Acho que talvez, daqui a uns cinco anos, todos reavaliem suas escolhas, mas por ora parece que não temos condições de ser muito seletivos."

O exército de McCrumbs tentando ocupar o mercado de trabalho contribuiu para elevar a taxa de desemprego na faixa etária de 20 a 24 anos para mais de 15%. Essa invasão também torna a vida mais dura para as gerações mais velhas.

Sabrina Johnson era administradora-assistente numa loja varejista de descontos antes de largar o emprego para cuidar de sua mãe. Aos 53 anos, ela passa seus dias percorrendo shopping centers em busca de outro emprego, mas agora sente a concorrência dessa gente mais jovem.

"É mais barato contratar dois jovens do que eu, pois eles aceitam US$ 6 ou US$ 7 por hora", diz ela. Johnson também não recebe seguro-desemprego, nem tem seguro-saúde. "A gente tem de ir sacando aos pouquinhos o que poupou, para conseguir ir levando."

Os efeitos secundários sobre as comunidades são consideráveis, pois as pessoas reduzem seus gastos, contribuindo ainda mais para o desaquecimento da economia.

Brian, Sterling, Melissa e Sabrina vivem, todos, em Charlottesville, cidade de 40 mil habitantes na Virgínia, circundada por montanhas cobertas de florestas. Em tese, a cidade parece estar passando por uma recessão relativamente amena. Blindada pelo motor econômico da Universidade da Virgínia, a taxa de desemprego pode ter dobrado, mas é de apenas 6%.

Mas os números não contam a história toda. Sentado à sombra de um guarda-sol à beira de uma piscina pública, Dave Norris, o prefeito, conta uma história mais pessimista. Sempre houve uma grande disparidade entre os custos habitacionais e os salários em Charlottesville, porque a presença de tantos estudantes e professores universitários pressiona os aluguéis. Em média, os americanos gastam um terço de sua renda em gastos com moradia; em Charlottesville a média fica mais perto de 40% a 50%.

Por isso, quando as pessoas começaram a perder seus empregos, muita gente rapidamente se deu conta de sua incapacidade de continuar pagando o aluguel ou o financiamento de suas moradias. "Temos um grande número de famílias e pessoas que estão ficando sem ter onde morar", diz Norris. "Encontrei muita gente que nunca imaginou se ver sem teto, mas, após perderem os empregos, as pessoas entram numa espiral descendente e, de uma hora para outra, passam a morar em seus carros. Até que seus carros sejam retomados por falta de pagamento."

A cidade tenta garantir que crianças sem-teto possam continuar em suas escolas e, para isso, arca com o custo de seu transporte. "Nós até mandamos taxis para apanhá-las em seus abrigos para sem-teto", afirma Norris.

Organizações beneficentes e igrejas também estão tentando dar apoio a pessoas não protegidas pelas frágeis redes de segurança social do Estado. O banco de alimentos local está diante de uma demanda sem precedentes, e as igrejas têm sido inundadas com pedidos de ajuda para pagar contas de água e eletricidade.

"Apesar de termos efetivamente um setor cívico bastante ativo aqui, e de as igrejas estarem também muito envolvidas, não é suficiente", diz o prefeito.

A despeito de tudo isso, os americanos até agora se mostraram estoicos diante das adversidades: Johnson vai continuar preenchendo formulários de pedido de emprego; McCrumb está muito contente por ter um trabalho; Taylor acha que as coisas vão melhorar.

Brian Gutrick, por sua vez, planeja fazer um estágio, para que no futuro suas credenciais sejam tão boas que ninguém possa lhe recusar um emprego.

"Somos uma gente muito resiliente", diz Norris, enquanto as crianças espirram água e gritam na piscina atrás dele. "Não sucumbimos ao desespero. Ainda." (Tradução de Sergio Blum)

Autor: Sarah O´Connor, Financial Times

Fonte: Jornal Valor Econômico


TAGS:

Desemprego, Recessão, EUA, Proteção Social

 

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